Nossa apresentação de CIDADE DOS OUTROS no dia 21/07 no Panorama de Artes da Cena na UFMT foi realmente surpreendente. O público lotou a circunferência quadrada de nossa arena e nos brindou com vários minutos de espera depois do último texto.
Foto: Chico Alves
A maioria do público saiu logo depois que os personagens ficam rodando, rodando, rodando, sem sair do lugar. Passávam por nós dizendo baixinho coisa do tipo: "parabéns", "excelente espetáculo", "adorei". O que nos deixa sempre muito felizes.
Um pequeno grupo de incrédulos permaneceu presente, dividindo a espera com os personagens. Lá ficamos cerca de 30 minutos. Ouvíamos eles indagarem sobre as razões do espetáculo, o que estávamos querendo dizer com isso ou aquilo, o que significava o cavalo, "e o urubu, somos nós?". No radinho de pilha um programa é anunciado: A Espera. Essa coinscidência quase nos levou à gargalhada, mas conseguimos nos concentrar.
Não sabemos se foi a organização do Panorama que pediu para eles se retirarem ou se eles acharam que não tinha mais graça ficar ali, e saíram, mas estavam esperando pela gente na porta do teatro. Tivemos uma deliciosa conversa sobre "isso, isso tudo".
CIDADE DOS OUTROS é realmente perturbador e continua sendo mesmo depois de 6 anos de estrada (estreamos em 2010). Acredito que a potência maior está na forma com que ele foi feito, com essa parceria com esse diretor que admiramos, Amauri Tangará.
Foto: Chico Alves
Outra grande potência é atuar olhando diretamente para o rosto dos espectadores. Fica claro quem está curtindo e quem está confuso; quem esperava ver outra coisa e quem foi gostosamente surpreendido; quem não gostou nada e quem curtiu.
Foto: Chico Alves
É um espetáculo que cada canto desse país responde de forma diferente, mas que nos perturba a todos. Talvez essa seja a maior potência afinal, a capacidade de nos perturbar depois de tanto tempo.
Agradecemos à produção do Panorama de Artes da Cena, em especial ao Sandro Lucose e à Keiko Okamura, por nos atenderem tão bem e com tanto zelo. Evoé aos companheiros de cena que dividiram conosco esse espaço aberto por esse evento; que possamos dar espaço à toda diversidade do teatro mato-grossense! E nosso beijo para Marianna Marimon que deixou sua impressão no site Cidadão Cultura. Abraço à todos!
Cidade dos Outros - Aldeia Xavante Wede'rã - Mato Grosso / Brasil (junho/2016). Foto: Protásio de Morais
Foi através dos olhos e olhares
atentos do publico xavante que redescobri o espetáculo que atuo desde 2010. Cidade dos Outros, uma produção da Cia.
Pessoal de Teatro (MT) é uma peça contemporânea que tem referencia em Beckett e
sua obra. Estão presentes a inapetência, a espera por um “maná divino”, os
devaneios da vida contemporânea urbana. O que tudo isso poderia dizer para uma
aldeia indígena? Sua hierarquia, seus ritos, seus tempos e as horas que não
passavam deram a apresentação que aconteceria, um lugar diferenciado.
O espetáculo foi realizado no warã,
espaço central da aldeia onde todos os dias os homens se reúnem. Foi neste
espaço que na primeira noite, fomos solenemente apresentados à comunidade, para
que soubessem quem somos, para que nos conhecessem. Minha sensação é que já
haviam nos aceitado desde nossa entrada ou muito antes disso. Que estávamos
próximos e distantes ao mesmo tempo, um misto de reconhecimento e
estranhamento.
O espaço do warâ é enorme, é o
centro da comunidade, tudo o que eu queria era ter um cenário maior, um
espetáculo maior para ocupar o espaço. Quando a montagem da máquina de cena
começou as crianças ficaram em volta, os homens ajudaram. Passaram a tarde
construindo tochas para que a iluminação do espetáculo fosse maior e que assim
pudesse ser registrado. Registro que foi realizado pela equipe de assessoria da
SEC – MT e do Ponto de Cultura Audiovisual Apowê. Cidade
dos Outros inicia antes do público entrar e só termina quando o último
espectador sai; não havia a mínima possibilidade de fazer isso lá. Na aldeia
não há espaço para a solidão, citando a amiga e jornalista Lidiane Barros que
presenciou na pele a vivência. Sabíamos que aquelas pessoas não iriam se
aproximar somente quando tudo estivesse pronto para recebê-las e se retirar
quando estivessem enfadados de esperar que os personagens parem de girar a
máquina de cena, como acontece usualmente.
Eles ficariam. Essa foi a nossa discussão de um dia e meio na
pré-produção da apresentação. A solução encontrada foi abrir toda a encenação,
começo, meio e fim expostos. Sem artifícios, segregações espaciais, regras ou
conceitos a seguir. O que tínhamos era o aqui e agora mais que verdadeiro, sem
regras pré-estabelecidas. O que tínhamos era a verdadeira troca entre cena e
espectador. Preparamos uma sinopse que contamos e que foi traduzida para que
todos pudessem acompanhar o espetáculo. Começamos. A cada frase do texto, a
cada silêncio, pausa, marcação, partitura realizada, pensávamos no que aquilo
realmente significava. O que significava o tema da espera para quem tem o tempo
todo a sua disposição, para aquele que não contabiliza sua vida em anos, dias e
horas? O que significava o tema da insanidade pelo consumismo para aquele que é
mais do que tem? O que importa o tema da
indiferença com o outro para quem se reconhece em comunidade, para aquele que
tem como parente o seu próximo desconhecido? Acabamos o espetáculo que não acaba
com um belo: e assim termina o teatro! Recebemos os aplausos, os apertos de
mãos e abraços de agradecimento reciproco. O que aconteceu depois foi mais um
aprendizado. Todos de mãos dadas, em volta da Urbitária, nossa máquina de cena, dançamos e cantamos com a nação
xavante. Uma forma de congraçamento e de troca generosa. Para encerrar a
celebração como disse Cacique Cipasse. Para nos irmanar e nos reconhecer
compartilhando um momento eterno e fugaz, eu completo.
Entre alegrias fomos nos trocar,
desmontar a máquina de cena, jantar e então conversar. Tudo o que queríamos
saber era se foi possível entender o português. Sim, claro que sim, somos nós
que não entendemos a língua indígena. Quanto ao espetáculo, muito engraçado e muito
bom para as crianças, porque são coisas que os adultos as alertam, para que
fora da aldeia não caiam no embuste do consumismo ou do trabalho escravizado
pelas horas do relógio. Um espetáculo para crianças! Que coisa mais feliz de se
saber, pois quando atuava para a comunidade atenta, era como eu me sentia, uma
criança.
A frase final incluída na
apresentação vaticinava o que ali se iniciou: um teatro terminou e outro começa
a nascer em mim.