quarta-feira, 8 de junho de 2016

Como uma aldeia xavante redefiniu um espetáculo de teatro contemporâneo.

 Cidade dos Outros - Aldeia Xavante Wede'rã - Mato Grosso / Brasil (junho/2016). Foto: Protásio de Morais

       Foi através dos olhos e olhares atentos do publico xavante que redescobri o espetáculo que atuo desde 2010. Cidade dos Outros, uma produção da Cia. Pessoal de Teatro (MT) é uma peça contemporânea que tem referencia em Beckett e sua obra. Estão presentes a inapetência, a espera por um “maná divino”, os devaneios da vida contemporânea urbana. O que tudo isso poderia dizer para uma aldeia indígena? Sua hierarquia, seus ritos, seus tempos e as horas que não passavam deram a apresentação que aconteceria, um lugar diferenciado.
            O espetáculo foi realizado no warã, espaço central da aldeia onde todos os dias os homens se reúnem. Foi neste espaço que na primeira noite, fomos solenemente apresentados à comunidade, para que soubessem quem somos, para que nos conhecessem. Minha sensação é que já haviam nos aceitado desde nossa entrada ou muito antes disso. Que estávamos próximos e distantes ao mesmo tempo, um misto de reconhecimento e estranhamento.         
            O espaço do warâ é enorme, é o centro da comunidade, tudo o que eu queria era ter um cenário maior, um espetáculo maior para ocupar o espaço. Quando a montagem da máquina de cena começou as crianças ficaram em volta, os homens ajudaram. Passaram a tarde construindo tochas para que a iluminação do espetáculo fosse maior e que assim pudesse ser registrado. Registro que foi realizado pela equipe de assessoria da SEC – MT e do Ponto de Cultura Audiovisual Apowê.  Cidade dos Outros inicia antes do público entrar e só termina quando o último espectador sai; não havia a mínima possibilidade de fazer isso lá. Na aldeia não há espaço para a solidão, citando a amiga e jornalista Lidiane Barros que presenciou na pele a vivência. Sabíamos que aquelas pessoas não iriam se aproximar somente quando tudo estivesse pronto para recebê-las e se retirar quando estivessem enfadados de esperar que os personagens parem de girar a máquina de cena, como acontece usualmente.  Eles ficariam. Essa foi a nossa discussão de um dia e meio na pré-produção da apresentação. A solução encontrada foi abrir toda a encenação, começo, meio e fim expostos. Sem artifícios, segregações espaciais, regras ou conceitos a seguir. O que tínhamos era o aqui e agora mais que verdadeiro, sem regras pré-estabelecidas. O que tínhamos era a verdadeira troca entre cena e espectador. Preparamos uma sinopse que contamos e que foi traduzida para que todos pudessem acompanhar o espetáculo. Começamos. A cada frase do texto, a cada silêncio, pausa, marcação, partitura realizada, pensávamos no que aquilo realmente significava. O que significava o tema da espera para quem tem o tempo todo a sua disposição, para aquele que não contabiliza sua vida em anos, dias e horas? O que significava o tema da insanidade pelo consumismo para aquele que é mais do que tem?  O que importa o tema da indiferença com o outro para quem se reconhece em comunidade, para aquele que tem como parente o seu próximo desconhecido? Acabamos o espetáculo que não acaba com um belo: e assim termina o teatro! Recebemos os aplausos, os apertos de mãos e abraços de agradecimento reciproco. O que aconteceu depois foi mais um aprendizado. Todos de mãos dadas, em volta da Urbitária, nossa máquina de cena, dançamos e cantamos com a nação xavante. Uma forma de congraçamento e de troca generosa. Para encerrar a celebração como disse Cacique Cipasse. Para nos irmanar e nos reconhecer compartilhando um momento eterno e fugaz, eu completo.
            Entre alegrias fomos nos trocar, desmontar a máquina de cena, jantar e então conversar. Tudo o que queríamos saber era se foi possível entender o português. Sim, claro que sim, somos nós que não entendemos a língua indígena. Quanto ao espetáculo, muito engraçado e muito bom para as crianças, porque são coisas que os adultos as alertam, para que fora da aldeia não caiam no embuste do consumismo ou do trabalho escravizado pelas horas do relógio. Um espetáculo para crianças! Que coisa mais feliz de se saber, pois quando atuava para a comunidade atenta, era como eu me sentia, uma criança.
            A frase final incluída na apresentação vaticinava o que ali se iniciou: um teatro terminou e outro começa a nascer em mim.







2 comentários:

  1. Que bela crítica de seu próprio trabalho!
    Com certeza Grande aprendizado!

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  2. Que bela crítica de seu próprio trabalho!
    Com certeza Grande aprendizado!

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